Artigo

Um inédito de Rubem Braga

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Por | 07.02.2012

 

 

 

Ano de 1965, 15 de dezembro, quarta-feira, circula o nº 10 do bi-semanário cachoeirense ?O CLARIM?, do Diretor Joel Pinto, tendo Joacyr Pinto (hoje SE7EDIAS) como redator esportivo e Arsênio Chereta, redator social. Na primeira página, com título ?Oração à Juventude?, o jornal traz: ?Discurso do paraninfo Rubem Braga, rouco no dia, lido pelo Dr. Deusdedit Baptista e que publicamos, na íntegra, considerando a sua importância como exortação à juventude a que seja, no amanhã que virá, uma geração diferente da atual, consciente de sua responsabilidade e da significação do seu trabalho para o futuro da terra brasileira. É uma ?peça rara? por seu conteúdo literário e pela mensagem que contém?.

 

Agradeço muito a Sérgio Neves, amigo de todas as horas, a deferência especial de me permitir anunciar a Cachoeiro de Itapemirim e ao mundo, do qual ela é a Capital Secreta, e às vésperas do centenário do cronista Rubem Braga, a descoberta magnífica que ele fez, pesquisando os ?guardados? de D. Marlene Michalsky Pinto, esposa de Joel Pinto. Corremos, ambos, os olhos, com emoção, na coleção de jornais do amigo comum Joel Pinto, que dia desses nos deixou, deixou-nos como fraternos amigos dele, eu e Sérgio.

 

Como o discurso é grande para os padrões da imprensa diária atual e podia ser publicado em duas edições, de início pensei assim. Mas, em nome da unidade e da importância do texto, da lição una que ele é, me convenci do contrário. Então, segue inteiro o momento inédito e quase cinquentão do também cinquentão Rubem Braga.

 

Meus jovens amigos

 

Rubem Braga

 

Quero, antes de tudo, agradecer a grande honra que me deram as normalistas da E. N. Elísio Imperial e os concludentes do curso Científico do Liceu, ao me convidarem para paraninfo. E me pergunto por que mandaram vir do Rio este senhor gordo de cabelos brancos, que todos sabem que não é orador, para fazer um discurso esta noite. Fui, entre estas mesmas paredes, um ginasiano magro, medíocre e tímido que nunca teve notas muito brilhantes e duas vezes teve de fazer segunda época para passar de ano. Na verdade, fui um aluno apenas regular, e se algumas vezes tirei algumas notas boas foi em composição literária; mesmo assim, meu exame de português não foi lá essas coisas, ainda bem que tivera 8 na prova escrita. No exame oral, o examinador me mandou conjugar o verbo VIR. Comecei muito bem: eu venho, tu vens, ele vem… Depois, ele pediu o pretérito perfeito, e não tive dúvidas: eu vim, tu vieste, ele veio… E o futuro? Eu virei, tu virás, ele virá… E o pretérito imperfeito? Pretérito imperfeito? Pensei um pouco e mandei brasa: eu vinha, tu vinhas, ele vinha, nós vínhamos, vós vínheis, eles vinham. E o imperfeito do subjuntivo? Imperfeito do subjuntivo? Im-per-fei-to do sub-jun… tivo… Senti, naquele instante, que estava tendo um ataque de burrice… Na verdade não me lembrava mais que tempo era aquele. Subjuntivo eu sabia. E depois de um pequeno, mas angustioso silêncio, resolvi me sair com esta: ?Bem, o subjuntivo é: que eu venha, que tu venhas…? Mas, o examinador me interrompeu:

 

Eu não lhe pedi o subjuntivo presente. Pedi-lhe o imperfeito do subjuntivo!

 

Embatuquei. Comecei a suar. O examinador não era professor daqui, era um sujeito da banca examinadora vinda do Rio. Lembro-me que era muito moço e usava óculos. Meu silêncio era penoso. Um outro examinador cochichou alguma coisa ao ouvido daquele que me interrogava, e resolveu me ajudar: Se eu vi…

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Ah, sim! E me pus alegremente a conjugar: se eu vinhesse, se tu vinhesses, se ele vinhesse… Mas o professor me interrompeu:

 

Se eu o que?

 

Se eu vinhesse, se tu vinhesses, se ele vinhesse…

 

O homem abanava a cabeça, e me interrompeu novamente. ?Não é este tempo mesmo, professor, que o senhor perguntou?? Ele disse: o tempo é este mesmo, se eu vi… mas você está pronunciando mal. Pronuncie com toda a clareza.

Não tive dúvidas: ?se eu vinhesse, se tu vinhesses, se ele vinhesse, se nós vinhéssemos, se vós vinhésseis, se eles vinhessem.?

 

Não era possível pronunciar mais claramente. Eu quase gritava. O pior é que o homem fazia uma cara de desgosto, de reprovação:

 

Você tem certeza de que é assim mesmo: se eu vinhesse, se tu vinhesses…?

Fiquei calado.

 

Tem certeza ou não tem?

 

Tenho.

 

O senhor está nervoso. Estou vendo aqui sua prova escrita: é muito boa. Não é possível que o senhor pratique um erro tão horrível como este. Já chamei sua atenção para a pronúncia. Estou tentando ajudá-lo.

 

Vou lhe dar uma última chance. Acalme-se. Conjugue novamente…

 

E novamente lá vim eu: ?Se eu vinhesse, se tu vinhesses…?

 

O senhor é teimoso. Pode retirar-se.

 

Levantei-me, vermelho. E logo que saí um colega me pegou pelo braço e me disse: ?você está maluco? Que negócio de vinhesse é esse? É viesse…?

 

Ainda quis abrir a boca para dizer que eu tinha razão, mas, no mesmo instante senti o meu erro, compreendi toda a extensão de minha burrada…

 

 

Meus jovens amigos, contei uma história. Qual a moral? Bem, a moral da história é que o verbo vir é irregular. A gente diz ?eu vinha?, mas, não pode dizer se eu vinhesse, como seria lógico. A lógica não resolve tudo na vida; a lógica pode induzir a grandes erros.  Cada um de nós deve desconfiar de sua própria lógica e ser menos teimoso e mais humilde. Há muitos verbos irregulares na língua portuguesa. E quem chegou à minha idade tem a tentação de dizer que todos os verbos são irregulares; mesmo quando um deles se conjuga bem direitinho na gramática e serve de paradigma, como esse verbo amar, esse terrível e misterioso verbo amar, acabamos por sentir que na conjugação da vida ele costuma ser irregular, irregularíssimo: eu amo, tu amaste, se ele amasse, nós amaríamos, vós teríeis amado, eles se desamarão…

Viver é, na verdade, o mais irregular dos verbos. Mas, o essencial não é acertar sempre: é tentar acertar, é não ter medo de enfrentar nenhum modo nem tempo; é não insistir no erro, mas, insistir na força e na beleza e na dignidade de viver.

 

Eu falei da beleza e da dignidade da vida. Essas palavras, nesse sentido, são quase sinônimas porque a vida só é bela quando a podemos viver com dignidade. Este é o problema de cada um; mas quando deixamos de pensar na vida de cada um de nós e pensamos na vida pública, então, devemos dizer: este é o problema de todos, e este deve ser também o problema de cada um.

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A nossa vida pública está vivendo agora, exatamente, um dos seus momentos mais melancólicos. Quem nasceu nesta terra, como eu, e vive lá fora, como eu vivo, chega a sentir, de vez em quando, vontade de esquecer que é do Espírito Santo. Todas as notícias que lá chegam sobre nossa vida pública são de acusações, de roubalheiras, de processos, de corrupção, de venalidade, de sujeiras. Quando me perguntam quem tem razão, quando me perguntam qual é a verdade, respondo honestamente: não sei. Estou fora do Estado e fora de sua política; tenho amigos que pertencem às diversas facções; não acuso ninguém; não defendo ninguém, Não sei nada. Ou melhor, só sei de uma coisa: a nossa geração, a minha geração, nada conseguiu criar de belo e de bom para o Espírito Santo; uns porque se acomodaram, outros porque se apaixonaram, estes por fracos, aqueles por incapazes, tal por ambicioso, tal por displicente ? mas, a verdade é que, vista e ouvida lá de longe, a vida pública do Espírito Santo é uma paisagem de brejo, com sapos de vozes variegadas a coaxar na lama, todos gritando e ninguém se entendendo. Nem ao menos se discutem problemas coletivos ou ideias gerais: tudo fica no âmbito estreito dos conflitos pessoais, na mesquinhez das eternas lutas de grupos e de interesses. Sei que no meio de todo esse pântano fremente de batráquios há pessoas de bem, homens clarividentes e puros, honestos e sinceros: mas, esses ou estão calados ou o barulho é tanto que lá de longe não conseguimos ouvir suas vozes.

 

Ainda rapazinho, eu assisti à vitória da Revolução de 30. Vi algumas outras revoluções depois, umas derrotadas, outras vitoriosas. O que não vi foi melhorar o tônus de nossa vida pública: ela continua baixa, mesquinha, triste.

Parece que é lícito a um paraninfo dar conselhos, mas, eu como sou dessa geração que não soube ou não pode ou, em sua maioria, nem ao menos quis consertar nada, eu não me julgo com autoridade para vos dar conselho algum. Quero, entretanto, vos fazer um apelo: jovens, não entreis nesse pântano; não tomeis partido nessa briga de sapo intanha com sapo tanoeiro; não vos conformeis com um futuro mesquinho de pererecas a dar saltos para abocanhar insetos; não peçais, como as rãs da fábula, um rei para vos oprimir ? nem rei paisano nem rei fardado. Sois jovens; o Espírito Santo, o Brasil, o mundo, são vossos, fatalmente vossos. E o vosso mundo será o que vós dele fizerdes. Acreditai em vós mesmos; pensai e repensai com isenção, com esforço, com todo carinho, sem preconceitos, honestamente, os problemas humanos e sociais de nossa terra; e, sempre que encontrardes uma solução, lutai por ela sem medo, honradamente, teimosamente, limpamente. Isto que aí está não pode piorar; e vós, só vós, podeis criar algo de melhor: trabalhai com o povo, para o povo, confiando no povo para que ele possa confiar em vós.

 

Este é o meu apelo; esta é a vossa tarefa; esta é a nossa esperança; que Deus vos acompanhe e vos ajude!

 

 

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Eterna Aprendiz – Por Flávia Cysne*

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Que a vida é uma escola não é novidade né? E eu tenho constatado esse fato todos os dias. Especialmente em relação às mulheres, que têm a capacidade impressionante de se reinventar.

A constatação é realmente diária. Muitas histórias são parecidas com a minha, outras diferentes, mas todas se entrelaçam na resiliência e capacidade de seguir em frente, superando muitos desafios, sempre aliados à criação dos filhos, ao trabalho em casa e fora dela e à gestão da família, nem sempre com o apoio do companheiro, o que felizmente não é o meu caso.

Tenho convivido nos últimos meses com muitas mulheres que sempre foram empreendedoras, mas que não enxergavam o valor de sua atividade, o que felizmente mudou a partir do trabalho do conscientização e apoio como o realizado pela Aderes junto a mulheres de todo o Estado.

Numa das agendas que cumpri como representante do escritório regional sul do órgão ouvi algumas histórias que mostram a importância do nosso trabalho. Uma produtora rural contou que sempre trabalhou na roça ao lado do marido. Mas que o retorno financeiro do seu trabalho não passava pela sua mão. Era da família,  o que era enxergado até com certa naturalidade, já que com sua mãe era exatamente igual.

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Ela falava da importância de encontros como o que estávamos promovendo porque foi participando de um deles que descobriu que poderia ter sua própria renda fazendo as geleias, bolos e outras delícias que eram tradição de família e agradavam a todos. A mulher me contou, feliz, que o trabalho continua intenso e que agora, como dona de uma agroindústria com produtos bastante requisitados no mercado.

A diferença é que tem dinheiro no fim do mês e já comprou muitas coisas para si e sua casa que eram sonhos da vida toda. Por que estou contando isso? Porque é gratificante perceber que o nosso trabalho é muito importante para valorizar o  de tantas outras mulheres que, como eu (que tenho uma produção de flores) estão sempre em atividade.

Trabalhando pelo bem-estar da família, mas também para alcançar sonhos e projetos pessoais nem sempre valorizados.

Neste trabalho é fundamental fortalecer e valorizar outras mulheres naquilo que fazem com excelência. Mas que nem sempre veem como uma atividade empreendedora e sustentável.  Estou realmente muito feliz porque aqui ninguém solta a mão de ninguém. Juntas somos mais fortes.

  • Flávia Cysne é ex-prefeita de Mimoso do Sul e atualmente gerente da Aderes no Sul do Espírito Santo
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