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Quando todo mundo é especialista

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A natureza da expertise é algo incerto. É fascinante observar como e por que as pessoas passam a ser vistas como comentaristas legítimos de determinados temas, quando, por vezes, demonstram ter pouca e rasa compreensão destes mesmos assuntos.

Por | 06.01.2012

 

Por Nigel Thrift em 03/01/2012 na edição 675

Reproduzido do Chronicle of Higher Education [20/12/11]. Tradução: Leticia Nunes, título e intertítulo do OI.

 

A natureza da expertise é algo incerto. É fascinante observar como e por que as pessoas passam a ser vistas como comentaristas legítimos de determinados temas, quando, por vezes, demonstram ter pouca e rasa compreensão destes mesmos assuntos.

É claro, a tendência é sempre presente em democracias midiáticas onde ter uma opinião é por vezes confundido com estar bem informado. Mas a tendência certamente está em alta nos últimos tempos. Jornais que tentavam checar todos os fatos ao estilo New York Times estão desaparecendo à medida que a Internet assume uma nova hegemonia midiática. Os jornais que sobrevivem parecem se tornar, cada vez mais, depósitos de comentários e notícias.

Os padrões de busca na internet tendem a ser bastante limitados e a confirmar opiniões, mais do que confrontá-las. Todo tipo de celebridade parece ter recebido carta branca para se manifestar sobre o que bem entender, normalmente em tempo real através do Twitter (no Reino Unido, humoristas de stand-up ? uma praga moderna se houvesse uma ? parecem estar monopolizando o mercado). E por aí vai.

Mais confiança

As universidades dificilmente ficam imunes a esta tendência. Aqueles acadêmicos que alcançam um pouco de fama costumam ficar tentados a se mover para fora de sua área de conhecimento: com que frequência não ouvimos vencedores do Prêmio Nobel repentinamente vestindo o manto da sabedoria de muitas outras coisas além da área pela qual ganharam o prêmio, às vezes com resultados bastante embaraçosos?

Assim, alguns acadêmicos começam a se envolver com a imprensa de forma que suas opiniões passam a ser requisitadas em uma vasta gama de assuntos, alguns deles fora de suas áreas, para ser educado. Finalmente, muitos acadêmicos, em sua busca por impacto na mídia, parecem seguir ativamente casos peculiares, como pode ser visto em algumas áreas da psicologia e da economia.

Parte do motivo para este estado das coisas é claramente a competição. Não ocorre apenas que as universidades foram desafiadas como fontes de conhecimento por algumas das tendências que eu já esbocei, mas também que outras fontes de conhecimento cresceram: como as organizações como consultorias e ONGs, que distribuem conhecimento de forma diferente das universidades mas ainda assim fazem, da mesma maneira, alegações de verdades.

Como o público não é fragmentado em públicos diversos, todos podendo acreditar exatamente naquilo que querem e capazes de encontrar múltiplas maneiras de confirmar suas verdades, então algum tipo de recuo é preciso. E é estimulante ver os sinais começando. Não apenas existe hoje todo tipo de site de verificação de informações, voltados a fornecer dados com a maior precisão possível diante das sombrias alegações feitas por políticos e afins, como as universidades também estão se envolvendo. Por exemplo, o projeto universitário australiano The Conversation tem como objetivo fornecer informações confiáveis baseadas em pesquisas acadêmicas, mas editadas por jornalistas profissionais. Universidades individuais também estão se tornando ativas (veja, por exemplo, o Knowledge Centre da Universidade Warwick).

Em outras palavras, um contra-ataque começou e já não era sem tempo. Nós podemos apenas esperar que este contra-ataque não dê às universidades apenas mais confiança em seu próprio valor em um momento em que enfrentam pressão, mas também alimente novas práticas de uma democracia bem informada.

***

[Nigel Thrift é professor e vice-reitor da Universidade de Warwick]

 

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Ao esperar por Ferraço, políticos mostram que não há projetos para governar Cachoeiro

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É de estarrecer essa cena trágica que Cachoeiro volta a ver, como ocorre em toda véspera de eleições: as reuniões (ou entrevistas coletivas) comandadas pelo deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM) para se posicionar diante do quadro eleitoral.

Nada contra o deputado, que a rigor já cumpriu, e bem, seu papel na cidade como político. Mas chega a ser assustador quando jovens políticos de outra geração que não a do deputado ainda se agarram na dependência de um aval político dele. É de lascar!

Esse cenário mostra que até agora não há projetos alternativos à reeleição de Victor Coelho. Existe, de um lado, uma proposta de continuidade administrativa e, do outro, projetos isolados que tentam ocupar os espaços deixados pela falta de lideranças. Tipo assim, “se Ferraço não for candidato, eu serei”.

Para dar exemplo. Bastou Alexandre Bastos desistir da disputa para começar aparecer nomes como o do presidente da Câmara de Vereadores Alexon Cipriano (PROS), o da vereadora Renata Fiório (PSD), entre outros, além dos que já existiam.

Nada contra pré-candidaturas. Respeito a legitimidade delas e, quem sabe, de fato nas ruas, uma delas possa vencer. Mas a pergunta é: existe um plano para administrar e desenvolver Cachoeiro?

As perguntas seguem. Existe um grupo político que vem amadurecendo há tempos ideias e ideais para nesse momento pré-eleitoral lançar ao povo essa carta de intenções administrativas? Existem homens e mulheres pensando diuturnamente em soluções para os gargalos municipais?

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A resposta é essa: não. Não existe.

No Cachoeiro de tempos idos, e isso não é nada longínquo, existia o grupo do poder, que governava, e um outro que se reunia permanentemente na construção de projetos alternativos para tomar o poder e fazer diferente. Não eram reuniões em cima da hora. Eram homens de ideias convictas de como administrar a cidade. Essas disputas não se verificavam a poucos meses do pleito, mas tão logo terminavam as eleições. Ou seja, terminava uma e começava outra.

Foram assim as velhas e clássicas disputas do grupo do MDB (Roberto Valadão, Hélio Carlos Manhães, Gilson Carone…) contra Ferraço.

Assim também foram as insistentes investidas do grupo do PT de Cachoeiro para chegar ao poder. Os petistas, hoje em desgraça na boca de muita gente, deram excelente contribuição ao histórico eleitoral de Cachoeiro porque ensinaram como construir e manter um projeto político, sabendo esperar várias eleições até ganhar duas consecutivas e sepultar os grandes caciques eleitorais da cidade.

Em 2004 existe outro caso bem sucedido de projeto eleitoral que não foi construído em cima da hora e deu certo pela sua persistência e consistência: a eleição de Roberto Valadão.

O grupo valadonista observava Ferraço governar duas vezes consecutivas e já se preparando para fazer o sucessor Jathir Moreira. Mas bem antes do pleito lançou uma série de reuniões nos bairros de Cachoeiro.

Nessas reuniões noturnas, semanais e ininterruptas, enquanto discutiam política e questionavam pontos da administração ferracista também apresentavam um modelo novo de administrar. Modelo este que seria mostrado de forma mais ampla à população nos programas eleitorais. Tratava-se de Um Plano Para Cachoeiro. Deu certo e Valadão virou prefeito.

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O caso de Glauber Coelho também é clássico. Desde vereador ele se preparava para governar um dia. Foi secretário municipal mais de uma vez, tomando desde cedo conhecimento amplo da máquina administrativa. Estudava Cachoeiro e seus gargalos. E em 2012 por pouco não se elegeu. Apesar da derrota manteve seu capital político e ampliou, e chegava como franco favorito para 2016. Sua força e projeto político eram tão fortes que mesmo morto trouxe à tona seu irmão, até então um desconhecido.

Essas histórias não são tão antigas, mas muito eficientes. Mostram que projetos consistentes sem serem feitos em cima da hora podem dar excelentes resultados. Lamentavelmente não é o que vemos hoje para Cachoeiro.

Vivemos um salve-se quem puder, projetado em cima de nomes sem planos administrativos construídos a partir de estudos aprofundados dos problemas cachoeirenses.

O que há de real é um modelo administrativo atual com resultados consideráveis e bem aceitos pela população. E que para derrotá-lo será preciso muito mais que coletivas vazias…ou tão inovadoras quanto um museu de velhas novidades.

Aos homens que sonham uma vida inteira, a glória de serem imprescindíveis. É isso que tem faltado a Cachoeiro de Itapemirim nos tempos atuais.

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