Opinião

O trapézio de Gilberto Carvalho

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O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, é um personagem machadiano. Como aconteceu a Brás Cubas, pendurou-se-lhe uma ideia no trapézio que tinha no cérebro: a vaia e os xingamentos dirigidos a Dilma Rousseff não foram obra da ?e

Por | 25.06.2014

 

Por Mauro Malin em Observatório da Imprensa

 

O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, é um personagem machadiano. Como aconteceu a Brás Cubas, pendurou-se-lhe uma ideia no trapézio que tinha no cérebro: a vaia e os xingamentos dirigidos a Dilma Rousseff não foram obra da “elite branca”. Representam um fenômeno mais generalizado. Tanto que Carvalho, usando o metrô para voltar do estádio, viu “uns moleques” formando no vagão coro mal-educado.

 

No universo petista e lulista, foi uma percepção não canônica. “Elite branca”, afinal, é uma explicação tão cômoda, a despeito da imprecisão etnográfica (para não falar de sociologia e política). Então quer dizer que não foi um segmento privilegiado da turba ingrata o promotor de vaias e xingamentos? Há descontentamento generalizado?

 

Não, não se trata disso. Carvalho dá agilmente uma cambalhota mental e, para não fugir às linhas estruturais do libreto operístico, diz que a perversa mídia “faz a cabeça” da multidão. Donde se depreende que o povo é bobo. Ou, menos enfaticamente, la massa è mobile.

 

Seja como for, obra da áspera realidade dos fatos ou da máquina de moer cérebros da mídia, Carvalho diz em entrevista à Folha de S.Paulo (23/6) que o PT alimenta a ilusão de que o povo pensa que está tudo bem. Problemas, melhor não tê-los. Mas, tendo-os, melhor não ignorá-los.

 

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Coisa de rico, riquinho

 

O governador do Ceará, Cid Gomes, sólido aliado do governo federal, acha entretanto que a agressividade parte mesmo é de quem está por cima da carne seca. Em entrevista ao Valor (23/6), disse:

 

“Achei que foi uma coisa de rico, de riquinho, agressiva demais. E foi um tiro no pé. Desperta mais nas pessoas mais simples o sentimento de que há aversão das classes mais ricas com [sic] essa instância de poder porque quem está no poder valoriza políticas de atenção aos mais pobres.”

 

Capítulo da corrupção

 

No capítulo da corrupção, Carvalho reconhece crimes cometidos por petistas, mas aponta que os similares cometidos por adversários recebem tratamento ameno na imprensa. Seu colega de governo Jorge Hage, ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU), em artigo na mesma edição da Folha (“Avanço irreversível”), tem abordagem diferente:

 

“Não se ignora, por outro lado, a contribuição da imprensa, disposta como nunca a apontar casos de corrupção, o que não deixa de ser natural quando assumiu o governo um partido que incluía o combate à prática entre suas bandeiras e que desbancou do poder as forças que com ela conviviam, sem atacá-la, havia mais de 500 anos”.

 

Hage não varre problemas para debaixo do tapete, mas se esquece da composição da famosa “base aliada”. Poucas coisas são mais “500 anos de…” no Brasil do que o PMDB de Michel Temer, José Sarney, Renan Calheiros, Henrique Eduardo Alves, ou o PTB de Fernando Collor.

 

Notícias boas e ruins

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Circo retórico à parte, o jornalista José Roberto Toledo, em coluna no Estado de S.Paulo (“Foto, filme, flashback”, 23/6), trabalha com uma categoria interessante. Algo como a mídia jornalística refletida no espelho da opinião. Diz Toledo que a esta altura de 2010, quando o governo Lula tinha apoteóticos níveis de aprovação em pesquisas, “a percepção de que o noticiário era mais favorável ao governo era três vezes maior do que a percepção de más notícias. Quase uma euforia”. Agora, “a percepção de que as notícias são ruins para o governo é quatro vezes mais forte entre os eleitores do que a percepção do noticiário positivo”.

 

Duas hipóteses básicas explicariam tal fenômeno. A primeira é a mais simples, mais “barão de Itararé” (“De onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada”): a situação piorou, de modo geral, embora haja, como em qualquer situação, altos e baixos, e a despeito dos méritos que tenham políticas públicas do governo federal e dos governos de seus aliados estaduais e municipais.

 

A alternativa seria a seguinte: a mídia jornalística foi mais boazinha com Lula do que tem sido com Dilma. Um tanto escalafobética, mas certamente contará com não poucos adeptos. Mesmo que à custa de contorções mentais bem mais acrobáticas do que as do ministro Carvalho.

 

Escolha a tua, atento leitor. Se for inteligente, dou-me por satisfeito. Se não o for, dou-te um piparote, como Machado de Assis aos leitores de antanho. E não se esqueça de seguir atentamente o debate sobre regulação, ou democratização, ou controle social da mídia. Aí tem gato.

 

 

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Opinião

Ao esperar por Ferraço, políticos mostram que não há projetos para governar Cachoeiro

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É de estarrecer essa cena trágica que Cachoeiro volta a ver, como ocorre em toda véspera de eleições: as reuniões (ou entrevistas coletivas) comandadas pelo deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM) para se posicionar diante do quadro eleitoral.

Nada contra o deputado, que a rigor já cumpriu, e bem, seu papel na cidade como político. Mas chega a ser assustador quando jovens políticos de outra geração que não a do deputado ainda se agarram na dependência de um aval político dele. É de lascar!

Esse cenário mostra que até agora não há projetos alternativos à reeleição de Victor Coelho. Existe, de um lado, uma proposta de continuidade administrativa e, do outro, projetos isolados que tentam ocupar os espaços deixados pela falta de lideranças. Tipo assim, “se Ferraço não for candidato, eu serei”.

Para dar exemplo. Bastou Alexandre Bastos desistir da disputa para começar aparecer nomes como o do presidente da Câmara de Vereadores Alexon Cipriano (PROS), o da vereadora Renata Fiório (PSD), entre outros, além dos que já existiam.

Nada contra pré-candidaturas. Respeito a legitimidade delas e, quem sabe, de fato nas ruas, uma delas possa vencer. Mas a pergunta é: existe um plano para administrar e desenvolver Cachoeiro?

As perguntas seguem. Existe um grupo político que vem amadurecendo há tempos ideias e ideais para nesse momento pré-eleitoral lançar ao povo essa carta de intenções administrativas? Existem homens e mulheres pensando diuturnamente em soluções para os gargalos municipais?

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A resposta é essa: não. Não existe.

No Cachoeiro de tempos idos, e isso não é nada longínquo, existia o grupo do poder, que governava, e um outro que se reunia permanentemente na construção de projetos alternativos para tomar o poder e fazer diferente. Não eram reuniões em cima da hora. Eram homens de ideias convictas de como administrar a cidade. Essas disputas não se verificavam a poucos meses do pleito, mas tão logo terminavam as eleições. Ou seja, terminava uma e começava outra.

Foram assim as velhas e clássicas disputas do grupo do MDB (Roberto Valadão, Hélio Carlos Manhães, Gilson Carone…) contra Ferraço.

Assim também foram as insistentes investidas do grupo do PT de Cachoeiro para chegar ao poder. Os petistas, hoje em desgraça na boca de muita gente, deram excelente contribuição ao histórico eleitoral de Cachoeiro porque ensinaram como construir e manter um projeto político, sabendo esperar várias eleições até ganhar duas consecutivas e sepultar os grandes caciques eleitorais da cidade.

Em 2004 existe outro caso bem sucedido de projeto eleitoral que não foi construído em cima da hora e deu certo pela sua persistência e consistência: a eleição de Roberto Valadão.

O grupo valadonista observava Ferraço governar duas vezes consecutivas e já se preparando para fazer o sucessor Jathir Moreira. Mas bem antes do pleito lançou uma série de reuniões nos bairros de Cachoeiro.

Nessas reuniões noturnas, semanais e ininterruptas, enquanto discutiam política e questionavam pontos da administração ferracista também apresentavam um modelo novo de administrar. Modelo este que seria mostrado de forma mais ampla à população nos programas eleitorais. Tratava-se de Um Plano Para Cachoeiro. Deu certo e Valadão virou prefeito.

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O caso de Glauber Coelho também é clássico. Desde vereador ele se preparava para governar um dia. Foi secretário municipal mais de uma vez, tomando desde cedo conhecimento amplo da máquina administrativa. Estudava Cachoeiro e seus gargalos. E em 2012 por pouco não se elegeu. Apesar da derrota manteve seu capital político e ampliou, e chegava como franco favorito para 2016. Sua força e projeto político eram tão fortes que mesmo morto trouxe à tona seu irmão, até então um desconhecido.

Essas histórias não são tão antigas, mas muito eficientes. Mostram que projetos consistentes sem serem feitos em cima da hora podem dar excelentes resultados. Lamentavelmente não é o que vemos hoje para Cachoeiro.

Vivemos um salve-se quem puder, projetado em cima de nomes sem planos administrativos construídos a partir de estudos aprofundados dos problemas cachoeirenses.

O que há de real é um modelo administrativo atual com resultados consideráveis e bem aceitos pela população. E que para derrotá-lo será preciso muito mais que coletivas vazias…ou tão inovadoras quanto um museu de velhas novidades.

Aos homens que sonham uma vida inteira, a glória de serem imprescindíveis. É isso que tem faltado a Cachoeiro de Itapemirim nos tempos atuais.

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