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?Não pensem que vão desembarcar na Inglaterra.? Ao tirar a esperança dos estrangeiros, o prefeito Eduardo Paes atingiu em cheio o orgulho dos brasileiros. Os 600 mil turistas que aportaram aqui julgando adentrar o Paraíso

Por | 18.06.2014

 

Por Norma Couri em observatório da Imprensa

 

“Não pensem que vão desembarcar na Inglaterra.” Ao tirar a esperança dos estrangeiros, o prefeito Eduardo Paes atingiu em cheio o orgulho dos brasileiros. Os 600 mil turistas que aportaram aqui julgando adentrar o Paraíso Terrestre, como Américo Vespúcio nos definiu, foram forçados comparar o Brasil com o Togo e assim preservar a sensação de chegada ao paraíso. Comparar com o Primeiro Mundo? Longe disso. Mas não foi assim que o mundo se convenceu de estarmos prontos para sediar a Copa? E não é que acreditamos? Nós, que nos amávamos tanto, fomos forçados a ver uma imagem refletida num espelho pior do que aquele que os portugueses deram aos índios em 1500, em troca de cocares.

 

A imprensa estampou na primeira página a foto do atacante alemão Miroslav Klose no centro de uma roda de 20 índios Pataxó de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, sul da Bahia, fazendo pajelança lá onde Cabral levou suas naus. Os jogadores dançaram, Klose ganhou chocalho e arco e flecha, o meia Schweinsteiger saiu de cocar e o goleiro Neuer levou outro. Era a excentricidade do Mundo Novo sob o olhar europeu. Como no início dos descobrimentos, quando os índios selvagens foram levados à Corte francesa para espanto dos olhares civilizados.

 

Os ingleses foram ver aquilo que de longe soa até romântico – mas vai viver lá… –, as favelas, que todos já conheciam pelo filme Tropa de Elite. Aprenderam o que é capoeira no complexo esportivo da fortemente armada Rocinha. Estavam protegidos por dois batedores da Polícia Rodoviária Federal, dois carros da Polícia Federal e cinco caminhonetes do Exército armadas com fuzis. Foram sensíveis a crianças e jovens que participam de projetos sociais. Foster, Welbeck, Sturridge e Lallana ensaiaram uma luta de capoeira e passos da dança “lepo-lepo”. O meio-campista Jack Wilshere disse que agora, sim, entendeu o papel importante que o esporte tem no Brasil, o Brasil da pobreza e da tentação do crack.

 

Assim mesmo as cracolândias aumentaram nesse período, uma delas surgiu justo perto do centro de imprensa da Copa, no Riocentro (conforme Ancelmo Goes, em O Globo, 12/6)

 

Os holandeses foram cumprir dia de turista no Cristo Redentor do Rio, mas o calor – ah!, o calor de 30 graus que desde o começo abalou o técnico da Inglaterra Roy Hodgson, em Manaus –, fez a maioria cair mesmo nas ondas do mar da praia de Ipanema, sempre escoltados por policiais federais e militares, o que dá igual sensação de segurança e medo. Craques, os atacantes Arjen Robben e Dirk Kuyt jogavam água nos jornalistas que tentavam uma entrevista e foram castigados por Iemanjá: levaram um caldo ao tentar pegar onda de jacaré. Beach boys de Ipanema. Robben simulou uma briga na arrebentação com Kuyt, outros se protegeram do assédio da imprensa jogando frescobol ou bola de rúgbi. Mas eram estrelas, não eram? Dos turistas não escaparam, com autógrafos e fotos: não é todo dia que o mundo vem nos visitar.

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Paraíso perdido

 

Foi tanta segurança em São Paulo que moradores dos Jardins traduziram o que se passava na cabeça dos atletas: “Isso aqui parece o Irã, não é?” Melhor assim. Um croata comentou que recebeu a recomendação de nunca andar com dinheiro no bolso porque seria assaltado com facas e armas de fogo. Já o manual de sobrevivência dos franceses recomendava o contrário, a trazer sempre uma nota de R$ 20,00 ou R$ 50,00… para o bandido. O policial francês Willian Meynard, 27 anos, foi preso com um cigarro e duas barras de maconha ao tentar subornar o PMs do 5º. Batalhão, e justificou: “Na França fui instruído a oferecer dinheiro se fosse preso”.

 

Os vizinhos latinos estão mais casa, acostumados a roubos depois que a economia deles foi pro brejo. Os argentinos cumpriram a superstição de eliminar do hotel mineiro os andares 13 e 17 e apostaram no açúcar para aumentar a energia positiva. Vão se entupir dos 5 quilos de doce de marmelo e 30 quilos de doce de leite que trouxeram na bagagem. Os portugueses que nos conhecem há cinco séculos também não se espantam, assim mesmo preferiram se sentir em casa trazendo para Campinas 200 quilos de bacalhau autêntico e 48 garrafas de vinho do Porto.

 

Cachaça? Nosso produto nacional? Teve pouca saída para os estrangeiros que também não embarcaram na compra de biquínis para namoradas e mulheres.

 

Feijoada com esse calor? Os mexicanos ficaram na paella valenciana ao preço de R$ 790.

 

Espelho trágico, Ruy Castro previu (Folha de S.Paulo, 14/5). E Fernanda Godoy (Folha, 4/6) em “O Rio no espelho”:

 

“O Brasil é um país fechado em si mesmo, que tem dificuldade em captar a visão estrangeira (…). Recente ranking do site Trip Advisor, feito a partir da avaliação de 54 mil usuários, bota o Rio em 29º lugar entre as cidades mais visitadas do mundo. O Rio aparece especialmente mal nos quesitos mobilidade urbana, transportes públicos, limpeza nas ruas e, claro, na sensação de segurança”.

 

O país falhou na ampliação de reforma de 10 aeroportos, 10 estádios, 10 vias de transporte, no sistema de checagem de passaportes nos aeroportos que atrasou a chegada em até duas horas, nos preços do “surreal” que só resolveu “amaciar” em vista das desistências nas reservas de hotéis.

 

O publicitário Marcelo Serpa (Folha, 11/6) diz que o país vai pagar caro pela exposição. Nunca tanta gente olhou para cá, o Brasil não está nem entre os 40 países mais visitados do mundo, recorde de 6 milhões de visitantes no ano passado, enquanto a Croácia recebeu 9,9 milhões em 2012. Tudo bem, atraímos até Leonardo DiCaprio disfarçado de Fuleco com boina, camisa de bolinhas e cachecol verde-amarelo.

 

Mas nós acreditamos que a capital do Brasil tinha deixado de ser Buenos Aires, que nosso idioma não era o “brasileiro”, que ocupando o 8º lugar na economia do mundo estávamos pertinho do Primeiro Mundo com a pobreza deixada para trás (foram 42 milhões que saíram da extrema miséria ou 8,4 milhões, como anunciou o IPEA?). E que o Cinema Novo, Tom Jobim e Vinicius haviam patenteado a face que gostamos de exibir ao mundo.

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Eugenio Bucci escreveu (Estado de S.Paulo, 12/6) que “Dilma vilaniza os que desprezam a Copa” – leia-se passeatas, protestos, quebradeira– e cita Guilherme de Brito: “Tire seu sorriso do caminho/ que eu quero passar com a minha dor”.

 

A violência cresce no Rio desde a pré-Copa e agora vem a capa da bíblia inglesa The Economist (7-13/6) jogar por terra nossas esperanças de encantar a metade do planeta que nos espia pelas telinhas. É a roubalheira nos bastidores da Fifa, o desmatamento na Amazônia, o modelo obsoleto da maior rede de TV do Brasil, a Globo… A revista France Football estampou na capa o título “Medo do Mundial” (Peur sur le Mondial) e nas 12 páginas seguintes descreve que “por uma crise econômica e social o Brasil está longe de ser aquele paraíso imaginado pela Fifa”.

 

Bem na foto?

 

Estamos diante do espelho. Ancelmo Góis disse duvidar que algum coleguinha estrangeiro (são 16 mil jornalistas estrangeiros na cobertura) aqui na Copa não tenha orientação do seu editor lá fora para fazer reportagens sobre as mazelas brasileiras. “É do jogo”, diz.

 

O desastre da abertura da Copa com jeito de festa de final de ano escolar não tinha nada de brasileiro, e piorou com a ausência de wi-fi nos estádios, o entupimento dos sanitários dos banheiros do Itaquerão, o apagão em metade do estádio, os xingamentos. O detalhe que poderia colocar o Brasil par a par com o Primeiro Mundo, o exosqueleto pioneiro desenvolvido por Miguel Nicolelis – que envolveu 150 pessoas de 25 países em 17 meses, e que faria o tetraplégico Juliano Pinto se levantar, andar e chutar – foi menosprezado. A Fifa encolheu a tomada de 29 para 7 segundos, tão rápida ninguém viu.

 

A edição corrente da Veja São Paulo trouxe a declaração do publicitário Washington Olivetto: fazer boa propaganda é fácil, basta melhorar o produto. “Se nos próximos trinta dias ninguém buzinar no trânsito, todo mundo jogar lixo no lixo, todos os motoristas respeitarem as faixas de pedestres… ninguém incendiar nenhum ônibus, nem depredar nenhum monumento… ninguém explorar nem roubar ninguém…” Se isso tudo acontecer vai ter uma porção de estrangeiro querendo vir morar aqui.

 

Na mesma edição, o sociólogo José Arthur Giannotti lembra o espelho partido refletindo os dois Brasis, o do Neymar e o de fora do campo. É com esse encontro de Brasis que os estrangeiros estão se confrontando agora. Uma partida final que pode ser adiada, “mas é inevitável”.

 

Sairemos bem na foto? É a preocupação da edição desta semana de Época. Torcer contra? “Não sei como uma derrota ajudaria e melhorar as coisas para os brasileiros”, conclui o jornalista Humberto Werneck (Estadão, 15/6)

 

Tomara que os pajés nos ouçam e que o Brasil, pelo amor da nossa imagem, ganhe esta Copa.

***

Norma Couri é jornalista

 

 

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Ao esperar por Ferraço, políticos mostram que não há projetos para governar Cachoeiro

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É de estarrecer essa cena trágica que Cachoeiro volta a ver, como ocorre em toda véspera de eleições: as reuniões (ou entrevistas coletivas) comandadas pelo deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM) para se posicionar diante do quadro eleitoral.

Nada contra o deputado, que a rigor já cumpriu, e bem, seu papel na cidade como político. Mas chega a ser assustador quando jovens políticos de outra geração que não a do deputado ainda se agarram na dependência de um aval político dele. É de lascar!

Esse cenário mostra que até agora não há projetos alternativos à reeleição de Victor Coelho. Existe, de um lado, uma proposta de continuidade administrativa e, do outro, projetos isolados que tentam ocupar os espaços deixados pela falta de lideranças. Tipo assim, “se Ferraço não for candidato, eu serei”.

Para dar exemplo. Bastou Alexandre Bastos desistir da disputa para começar aparecer nomes como o do presidente da Câmara de Vereadores Alexon Cipriano (PROS), o da vereadora Renata Fiório (PSD), entre outros, além dos que já existiam.

Nada contra pré-candidaturas. Respeito a legitimidade delas e, quem sabe, de fato nas ruas, uma delas possa vencer. Mas a pergunta é: existe um plano para administrar e desenvolver Cachoeiro?

As perguntas seguem. Existe um grupo político que vem amadurecendo há tempos ideias e ideais para nesse momento pré-eleitoral lançar ao povo essa carta de intenções administrativas? Existem homens e mulheres pensando diuturnamente em soluções para os gargalos municipais?

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A resposta é essa: não. Não existe.

No Cachoeiro de tempos idos, e isso não é nada longínquo, existia o grupo do poder, que governava, e um outro que se reunia permanentemente na construção de projetos alternativos para tomar o poder e fazer diferente. Não eram reuniões em cima da hora. Eram homens de ideias convictas de como administrar a cidade. Essas disputas não se verificavam a poucos meses do pleito, mas tão logo terminavam as eleições. Ou seja, terminava uma e começava outra.

Foram assim as velhas e clássicas disputas do grupo do MDB (Roberto Valadão, Hélio Carlos Manhães, Gilson Carone…) contra Ferraço.

Assim também foram as insistentes investidas do grupo do PT de Cachoeiro para chegar ao poder. Os petistas, hoje em desgraça na boca de muita gente, deram excelente contribuição ao histórico eleitoral de Cachoeiro porque ensinaram como construir e manter um projeto político, sabendo esperar várias eleições até ganhar duas consecutivas e sepultar os grandes caciques eleitorais da cidade.

Em 2004 existe outro caso bem sucedido de projeto eleitoral que não foi construído em cima da hora e deu certo pela sua persistência e consistência: a eleição de Roberto Valadão.

O grupo valadonista observava Ferraço governar duas vezes consecutivas e já se preparando para fazer o sucessor Jathir Moreira. Mas bem antes do pleito lançou uma série de reuniões nos bairros de Cachoeiro.

Nessas reuniões noturnas, semanais e ininterruptas, enquanto discutiam política e questionavam pontos da administração ferracista também apresentavam um modelo novo de administrar. Modelo este que seria mostrado de forma mais ampla à população nos programas eleitorais. Tratava-se de Um Plano Para Cachoeiro. Deu certo e Valadão virou prefeito.

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O caso de Glauber Coelho também é clássico. Desde vereador ele se preparava para governar um dia. Foi secretário municipal mais de uma vez, tomando desde cedo conhecimento amplo da máquina administrativa. Estudava Cachoeiro e seus gargalos. E em 2012 por pouco não se elegeu. Apesar da derrota manteve seu capital político e ampliou, e chegava como franco favorito para 2016. Sua força e projeto político eram tão fortes que mesmo morto trouxe à tona seu irmão, até então um desconhecido.

Essas histórias não são tão antigas, mas muito eficientes. Mostram que projetos consistentes sem serem feitos em cima da hora podem dar excelentes resultados. Lamentavelmente não é o que vemos hoje para Cachoeiro.

Vivemos um salve-se quem puder, projetado em cima de nomes sem planos administrativos construídos a partir de estudos aprofundados dos problemas cachoeirenses.

O que há de real é um modelo administrativo atual com resultados consideráveis e bem aceitos pela população. E que para derrotá-lo será preciso muito mais que coletivas vazias…ou tão inovadoras quanto um museu de velhas novidades.

Aos homens que sonham uma vida inteira, a glória de serem imprescindíveis. É isso que tem faltado a Cachoeiro de Itapemirim nos tempos atuais.

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