Política

Nos campos de Ecoporanga a luta continua

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A questão da terra na Região Noroeste do Espírito Santo atravessa décadas. O conflito entre posseiros, grileiros, fazendeiros, jagunços, polícia militar é constante, como já relatamos na parte 2 desta reportagem.

Apesar da repressão policial ao suposto Estado União de Jeovah, em 1953, a luta pela terra não cessa. Pelo contrário, os episódios protagonizados por Udelino Alves de Matos e seus seguidores, bem como o desfecho do movimento e os relatos da repressão policial, chamam a atenção de militantes de esquerda.

Já no final da passagem de Udelino pela região de conflito e nos anos posteriores, os remanescentes dos posseiros, pequenos proprietários, sem-terra, convivem com membros do então clandestino Partido Comunista do Brasil (PCB), como mobilizadores da reivindicação de terra para a lavoura. Essa ação da esquerda dá maior politização e grau organizativo para os trabalhadores rurais da região. A principal exigência é a reforma agrária.

Para o pesquisador Elio Ramires Garcia, em sua dissertação de mestrado, Do Estado União de Jeovah à União dos Posseiros de Cotaxé: transição de movimento sociorreligioso a movimento político e organizado. Singularidades: transição e longevidade, há um movimento contínuo de luta pela terra, antes, durante e depois da destruição do Estado União de Jeovah.

Mudança na atuação

Anos depois, em 1954, o PCB decide em seu 4º Congresso partidário lutar pela terra e pela reforma agrária sem fazer uso da luta armada, ao contrário de outros movimentos de então, como as Ligas Camponesas, lideradas por Francisco Julião. “O movimento do Julião atuou em vários estados. No Espírito Santo, não. Até porque daria uma confusão enorme porque as Ligas Camponesas disputavam com os comunistas a hegemonia do movimento camponês”, explica o pesquisador em entrevista ao repórter.

“Eu fui colega de classe de Clonizete Alves Tristão [militante comunista e um dos primeiros a chegar à região], em 1964. Estreitamos a conversa a respeito do Cotaxé. Ele já tinha fugido, já tinha corrido do lugar. Estávamos concluindo o último ano do ensino médio”, conta Ramires. 

No ano de 1954, os militantes do PCB fundam a União dos Posseiros de Cotaxé (UPC). “Era uma região onde já se manifestava uma luta entre posseiros e grileiros. Daí, o interesse do Partido Comunista de se envolver na região. Quando desaparece o Udelino, o PCB, lá desde 1952, vai aos poucos se enturmando, se infiltrando, fazendo contatos, e em 1954 funda a UPC, e seu primeiro presidente é Francisco Calazans Pinheiro, o Chico Gato. Em 1954, a atuação da UPC já se deu numa outra visão. A visão da reforma agrária, da luta pela terra, pelo direito à terra, já não era mais o exército que faria uma guerra e promover uma revolução. Em vez de uma revolta pela terra, eu afirmo em minha dissertação que foi uma resistência camponesa”, relata Ramires.

Em 1957, com apoio dos sindicatos operários e do PCB, na clandestinidade desde 1947, é realizado em Vitória o 1º Congresso Estadual de Lavradores, no qual é criada a Associação de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Espírito Santo (Altaes). Os capixabas seguem o exemplo das Ligas Camponesas e do Movimento dos Agricultores Sem Terra do Rio Grande do Sul (Master) no que diz respeito à organização dos lavradores.

A luta pela terra, segundo defendia o PCB, era “não na lei e na marra, mas nas reivindicações, nas movimentações, nas petições, nas passeatas, nas representações, nas visitas a órgãos do governo. Era a linha do PC a partir do 4º Congresso. Em 1952 era uma visão, em 1954 é outra visão, a da luta institucional e não da insurreição e ocupação de terra do período de Udelino”, explica Ramires.

No 1º Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, realizado em novembro de 1961, em Belo Horizonte, a tese da “na lei e na marra”, defendida pelas Ligas Camponesas, vence a tese do PCB de luta institucional.

Neste congresso, seguindo a linha de atuação do PCB, e no 2º Congresso Estadual de Lavradores, realizado em 1962, os camponeses capixabas defendem a reforma agrária e a desmilitarização do campo na região norte, especialmente em Ecoporanga, cuja ocupação militar vem desde 1953, de acordo com relatos de historiadores.

A violência continua

Entretanto, a região de Ecoporanga continua sendo palco de violência por causa da posse da terra. Com a abertura de novas fronteiras agrícolas promovidas pelo governo durante a década de 1960, muitos deixam suas terras, vendidas ou não, e emigram para Mato Grosso, Paraná e Rondônia. Ecoporanga, que em 1960, segundo o IBGE, tem uma população de 75 mil habitantes, conta com apenas 13 mil, em 1970, conforme levantamento publicado em Histórica Geográfica do Espírito Santo, de Adriano Perrone e Thais Helena Leite Moreira.

O deputado Luiz Batista (MDB) descreve, em sessão de 23 de junho de 1966, a situação dos trabalhadores rurais da região e de sua “saída violenta, violentíssima, de uma grande população de trabalhadores e de lavradores, emigrantes do nosso interior”. 

Segundo o deputado, em seu discurso em Plenário, “de sexta-feira da semana passada a segunda desta semana, contei vinte caminhões carregados de famílias que saíam dos municípios de Ecoporanga, Barra de São Francisco e Mantenópolis, dirigindo-se para regiões do Paraná, Santa Catarina e Goiás”. As plantações de arroz, feijão, milho, acompanham os preços baixos do café, prejudicados pelos altos impostos e a falta de incentivo do governo, provocando o êxodo para outras terras em buscas de vida melhor.

O fenômeno da migração capixaba para outras regiões do país se acentua quando os trabalhadores rurais não têm mais força organizativa para lutar pela terra no Espirito Santo, principalmente depois do golpe militar em 1964. A desmobilização prossegue “até o seu desfecho, com derrota definitiva, no final do ano de 1966. Tal ocorre quando os posseiros negociam indenizações pelos anos de trabalho e benfeitorias, partindo, posteriormente, à procura de glebas no Centro-Oeste e no Norte do país”, relata Ramires em sua dissertação, citando a obra Massacre em Ecoporanga, do jornalista Luzimar Nogueira Dias (1984).