Opinião

Mais partidos, menos democracia

Publicados

em

A questão da reforma política desapareceu das mídias com o refluxo dos protestos nas grandes cidades brasileiras.

Por | 26.09.2013

Por Luciano Martins Costa em Observatório da Imprensa

A questão da reforma política desapareceu das mídias com o refluxo dos protestos nas grandes cidades brasileiras. Nem mesmo a decisão do Supremo Tribunal Federal, de admitir o recurso dos embargos infringentes para metade dos condenados na Ação Penal 470, foi capaz de recolocar os manifestantes nas ruas, embora a imprensa tenha martelado durante meses na tese do “clamor popular”. Não apenas a reforma não andou, como ninguém saiu às ruas para exigir qualquer coisa, como a Justiça Eleitoral acaba de autorizar a criação de mais dois partidos políticos. Vêm aí, segundo os jornais de quarta-feira (25/9), o PROS e o Solidariedade.

 

O PROS, como o próprio nome indica, será a favor do governo – deste governo e, quem sabe, dos próximos. Já o Solidariedade ameaça se juntar à oposição, emprestando a reputação de seu fundador, o sindicalista Paulo Pereira da Silva, à provável candidatura presidencial do senador Aécio Neves, do PSDB.

 

Mesmo com indícios de irregularidades na coleta de assinaturas de apoio, o Tribunal Superior Eleitoral resolveu aceitar o registro provisório das duas siglas, enquanto segue fazendo diligências.

 

Ora, sabe-se que, quanto mais próximas da regulamentação, mais força terão essas duas iniciativas para assegurar sua permanência, porque passam a atrair políticos que já ocupam cargos públicos, o que aumenta seu poder de pressão e deve reduzir o esforço diligente das autoridades eleitorais. Portanto, a imprensa já conta como certa a ampliação do número de partidos em atividade, para 32 agremiações.

Leia Também:  Ricardo Kotscho: Por que não criar um CNJ para a imprensa?

 

A que serve a maioria deles?

 

Não é preciso ser mais esperto que Poliana para entender que são uma forma eficiente de ampliar o poder político de seus integrantes, que passam a negociar futuras alianças. Sem considerar o fato de que cada sigla que nasce ganha direito a uma cota do fundo partidário, a formação dessas agremiações se transforma num grande negócio a cada ciclo de eleições, com as negociações de apoio aos candidatos com mais votos, na concorrência pelo tempo da propaganda eleitoral na televisão e no rádio.

 

Como se sabe, mídia é essencial na disputa das urnas. Mídia paga pelo Tesouro, ou como atrativo para prospectar clientes de lobbies, melhor ainda.

 

A corriola do atraso

 

Interessante observar que o noticiário sobre a profusão de partidos não faz qualquer relação com o escândalo em torno da Ação Penal 470. Afinal, seja verdade que se tratava de pagamentos mensais a parlamentares para votar com o governo, ou seja comprovado que os condenados tenham prevaricado na prática do chamado caixa 2, o fato é que na origem de tudo está o sistema partidário. Se houvesse alguma racionalidade no debate que a imprensa propõe sobre o escândalo chamado de “mensalão”, há muito estaria em pauta a questão das siglas de aluguel.

 

Depois que alguns jornais trouxeram entrevistas e artigos de juristas abrindo, tardiamente, discussões sobre a teoria do “domínio do fato”, que levou à imposição de penas rigorosas à maioria dos 24 condenados na Ação Penal 470, correm nas redes sociais digitais calorosos debates sobre esse aspecto do julgamento.

Leia Também:  Ela bebe até cair, ele abusa dela e a sua família assiste

 

O teor predominante nas opiniões de pelo menos três grupos de discussão que agregam jornalistas é uma suposta preocupação de juristas com a transformação dessa teoria em jurisprudência, o que viria a dificultar a defesa de réus importantes em alguns processos – como, por exemplo, governantes e donos de empresas.

 

Mas, afinal, o fim da impunidade dos poderosos não era o “Santo Graal” dos jornalistas, durante toda a barafunda que acompanhou o julgamento dos acusados no tal do “mensalão”? Faz-se um enorme barulho sobre as supostas consequências de um sistema partidário que favorece negociatas, e depois baixa esse silêncio escandaloso diante da evidência de que a criação de partidos passou a ser mais um negócio no dinâmico mercado de verbas públicas. Aliás, guardadas as devidas proporções, parece muito mais fácil criar um partido político do que abrir uma empresa no Brasil.

 

A imprensa parece conformada à situação. O noticiário político se concentra nos principais protagonistas, e deixa de lado a arraia miúda que os cronistas de Brasília chamam de “baixo clero”, muitos dos quais se abrigam nos partidos de aluguel.

 

Os jornalistas se esquecem que é nessa corriola que as forças reacionárias cultivam os votos que atrasam o desenvolvimento do país, como a tentativa de desmontar a legislação ambiental e outras questões fundamentais, como a consolidação dos direitos de minorias.

 

Foi assim na Constituinte de 1986-88, segue sendo assim 25 anos depois.

 

 

COMENTE ABAIXO:

Propaganda
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Opinião

Ao esperar por Ferraço, políticos mostram que não há projetos para governar Cachoeiro

Publicados

em

É de estarrecer essa cena trágica que Cachoeiro volta a ver, como ocorre em toda véspera de eleições: as reuniões (ou entrevistas coletivas) comandadas pelo deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM) para se posicionar diante do quadro eleitoral.

Nada contra o deputado, que a rigor já cumpriu, e bem, seu papel na cidade como político. Mas chega a ser assustador quando jovens políticos de outra geração que não a do deputado ainda se agarram na dependência de um aval político dele. É de lascar!

Esse cenário mostra que até agora não há projetos alternativos à reeleição de Victor Coelho. Existe, de um lado, uma proposta de continuidade administrativa e, do outro, projetos isolados que tentam ocupar os espaços deixados pela falta de lideranças. Tipo assim, “se Ferraço não for candidato, eu serei”.

Para dar exemplo. Bastou Alexandre Bastos desistir da disputa para começar aparecer nomes como o do presidente da Câmara de Vereadores Alexon Cipriano (PROS), o da vereadora Renata Fiório (PSD), entre outros, além dos que já existiam.

Nada contra pré-candidaturas. Respeito a legitimidade delas e, quem sabe, de fato nas ruas, uma delas possa vencer. Mas a pergunta é: existe um plano para administrar e desenvolver Cachoeiro?

As perguntas seguem. Existe um grupo político que vem amadurecendo há tempos ideias e ideais para nesse momento pré-eleitoral lançar ao povo essa carta de intenções administrativas? Existem homens e mulheres pensando diuturnamente em soluções para os gargalos municipais?

Leia Também:  Tijolaço analisa o BBB: A Constituição é letra morta?

A resposta é essa: não. Não existe.

No Cachoeiro de tempos idos, e isso não é nada longínquo, existia o grupo do poder, que governava, e um outro que se reunia permanentemente na construção de projetos alternativos para tomar o poder e fazer diferente. Não eram reuniões em cima da hora. Eram homens de ideias convictas de como administrar a cidade. Essas disputas não se verificavam a poucos meses do pleito, mas tão logo terminavam as eleições. Ou seja, terminava uma e começava outra.

Foram assim as velhas e clássicas disputas do grupo do MDB (Roberto Valadão, Hélio Carlos Manhães, Gilson Carone…) contra Ferraço.

Assim também foram as insistentes investidas do grupo do PT de Cachoeiro para chegar ao poder. Os petistas, hoje em desgraça na boca de muita gente, deram excelente contribuição ao histórico eleitoral de Cachoeiro porque ensinaram como construir e manter um projeto político, sabendo esperar várias eleições até ganhar duas consecutivas e sepultar os grandes caciques eleitorais da cidade.

Em 2004 existe outro caso bem sucedido de projeto eleitoral que não foi construído em cima da hora e deu certo pela sua persistência e consistência: a eleição de Roberto Valadão.

O grupo valadonista observava Ferraço governar duas vezes consecutivas e já se preparando para fazer o sucessor Jathir Moreira. Mas bem antes do pleito lançou uma série de reuniões nos bairros de Cachoeiro.

Nessas reuniões noturnas, semanais e ininterruptas, enquanto discutiam política e questionavam pontos da administração ferracista também apresentavam um modelo novo de administrar. Modelo este que seria mostrado de forma mais ampla à população nos programas eleitorais. Tratava-se de Um Plano Para Cachoeiro. Deu certo e Valadão virou prefeito.

Leia Também:  Ela bebe até cair, ele abusa dela e a sua família assiste

O caso de Glauber Coelho também é clássico. Desde vereador ele se preparava para governar um dia. Foi secretário municipal mais de uma vez, tomando desde cedo conhecimento amplo da máquina administrativa. Estudava Cachoeiro e seus gargalos. E em 2012 por pouco não se elegeu. Apesar da derrota manteve seu capital político e ampliou, e chegava como franco favorito para 2016. Sua força e projeto político eram tão fortes que mesmo morto trouxe à tona seu irmão, até então um desconhecido.

Essas histórias não são tão antigas, mas muito eficientes. Mostram que projetos consistentes sem serem feitos em cima da hora podem dar excelentes resultados. Lamentavelmente não é o que vemos hoje para Cachoeiro.

Vivemos um salve-se quem puder, projetado em cima de nomes sem planos administrativos construídos a partir de estudos aprofundados dos problemas cachoeirenses.

O que há de real é um modelo administrativo atual com resultados consideráveis e bem aceitos pela população. E que para derrotá-lo será preciso muito mais que coletivas vazias…ou tão inovadoras quanto um museu de velhas novidades.

Aos homens que sonham uma vida inteira, a glória de serem imprescindíveis. É isso que tem faltado a Cachoeiro de Itapemirim nos tempos atuais.

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

BLOG DO ILAURO

POLÍTICA

POLÍTICA NACIONAL

ECONOMIA

CIDADES

BLOG DO ILAURO

MAIS LIDAS DA SEMANA