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Jornalistas na faculdade, professores na redação

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Esta pode ser a saída para um problema que já era grande antes da internet e aumentou ainda mais de intensidade na era digital. Academia e redações sempre tiveram uma relação tensa

Por | 18.08.2014

Por Carlos Castilho em Observatório da Imprensa

 

 

Esta pode ser a saída para um problema que já era grande antes da internet e aumentou ainda mais de intensidade na era digital. Academia e redações sempre tiveram uma relação tensa por conta de prioridades diferentes na forma de encarar o exercício do jornalismo. Agora, a crise no modelo de negócios das empresas jornalísticas e a preocupação dos profissionais em encontrar alternativas para o enxugamento das redações criaram uma situação em que a academia e as redações estão condenadas a buscar um novo relacionamento.

 

O programa “Back to Newsroom” (De Volta às Redações) é uma das raras experiências em curso no mundo da comunicação onde a meta é dar aos professores de jornalismo a oportunidade de conviver durante algum tempo com a dinâmica das redações na era digital. O projeto é uma iniciativa do International Center for Journalists (Centro Internacional de Jornalistas) e tem como objetivo, além da troca de experiências e perspectivas profissionais, buscar estratégias para ampliar a diversidade étnica e cultural nas redações norte-americanas.

 

Alguns professores que participaram das primeiras turmas do “De Volta às Redações admitiram que há uma grande defasagem entre o que é ensinado nas faculdades e o que é praticado nas redações em matéria de jornalismo em ambiente digital. Embora, por exemplo, o discurso da convergência de plataformas seja consensual nas faculdades, ele assume outra perspectiva na prática das redações. A maioria dos cursos ensina os alunos a usar o vídeo segundo técnicas da televisão e não conforme as condições para aplicação em telas pequenas como tablets e celulares.

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Mas o retorno às redações pode ir muito além das questões técnicas na nova realidade digital do jornalismo. E a principal delas está na discussão das mudanças no contexto social, econômico e cultural no qual está inserido o jornalismo praticado na internet. Há um enorme descompasso entre as universidades e as redações na forma de encarar o jornalismo dentro da chamada sociedade da informação e do conhecimento. A academia avançou muito mais do que as redações na análise das mudanças estruturais e conjunturais da comunicação na era digital. Mas em compensação tem grande dificuldade em acompanhar o surgimento ininterrupto das chamadas TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) e mais ainda de verificar as consequências sociais e econômicas da inovação tecnológica.

 

As redações tendem a encarar as TICs como meras ferramentas para agilizar o trabalho de repórteres e editores, deixando de ver que a chamada revolução digital é muito mais do que a substituição do telex e da máquina de escrever pela internet e pelo computador. A desatenção com as consequências sociais das TICs levou as redações a não perceber como a revolução digital está mudando a natureza do jornalismo praticado na era da digitalização e da computação.

 

O jornalismo está deixando de ser uma atividade predominantemente voltada para a produção da commodity notícia para se transformar num componente indispensável da produção de conhecimento – e, através dele, da geração de capital social, um item obrigatório para crescimento social e econômico de comunidades sociais. A notícia jornalística está perdendo a sua condição de mercadoria de troca por anúncios publicitários para ser o elemento gerador de informações, que por sua vez são a matéria-prima do conhecimento.

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A troca temporária de papéis entre professores e profissionais no jornalismo é talvez a única forma disponível no momento para procurar eliminar, ou pelo menos reduzir, o descompasso entre redações e academia no que se refere às incompreensões mútuas sobre o papel da atividade jornalística na conjuntura atual.

 

O programa “Back to Newsroom” prioriza o intercâmbio entre redações e as faculdades de jornalismo, mas a atividade informativa é hoje cada vez mais interdisciplinar. É impossível desenvolver um jornalismo voltado para a produção de conhecimento sem uma interação com outras disciplinas. A velha técnica de “pescar” na economia, por exemplo, os dados para inserção no contexto da notícia commodity visando a audiência, afastou o jornalismo profissional dos centros de pesquisa acadêmica.

 

O jornalismo na era digital é uma atividade multi e interdisciplinar, ou seja, ela precisa de outras disciplinas para poder cumprir com a sua função de participar na produção de conhecimento socialmente relevante. A academia não é uma espécie de reserva intelectual do jornalismo, um banco de conhecimentos que é consultado em momentos de necessidade ou quando o jornalista precisa dividir a responsabilidade de uma informação com algum professor ou pesquisador.

 

A troca temporária de papéis é uma oportunidade única para buscar uma nova relação entre as redações e a academia. A experiência do “Back to Newsroom” sinaliza um caminho a ser percorrido, ampliado e diversificado. Caso isso não aconteça, os dois lados sairão perdendo.

 

 

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Ao esperar por Ferraço, políticos mostram que não há projetos para governar Cachoeiro

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É de estarrecer essa cena trágica que Cachoeiro volta a ver, como ocorre em toda véspera de eleições: as reuniões (ou entrevistas coletivas) comandadas pelo deputado estadual Theodorico Ferraço (DEM) para se posicionar diante do quadro eleitoral.

Nada contra o deputado, que a rigor já cumpriu, e bem, seu papel na cidade como político. Mas chega a ser assustador quando jovens políticos de outra geração que não a do deputado ainda se agarram na dependência de um aval político dele. É de lascar!

Esse cenário mostra que até agora não há projetos alternativos à reeleição de Victor Coelho. Existe, de um lado, uma proposta de continuidade administrativa e, do outro, projetos isolados que tentam ocupar os espaços deixados pela falta de lideranças. Tipo assim, “se Ferraço não for candidato, eu serei”.

Para dar exemplo. Bastou Alexandre Bastos desistir da disputa para começar aparecer nomes como o do presidente da Câmara de Vereadores Alexon Cipriano (PROS), o da vereadora Renata Fiório (PSD), entre outros, além dos que já existiam.

Nada contra pré-candidaturas. Respeito a legitimidade delas e, quem sabe, de fato nas ruas, uma delas possa vencer. Mas a pergunta é: existe um plano para administrar e desenvolver Cachoeiro?

As perguntas seguem. Existe um grupo político que vem amadurecendo há tempos ideias e ideais para nesse momento pré-eleitoral lançar ao povo essa carta de intenções administrativas? Existem homens e mulheres pensando diuturnamente em soluções para os gargalos municipais?

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A resposta é essa: não. Não existe.

No Cachoeiro de tempos idos, e isso não é nada longínquo, existia o grupo do poder, que governava, e um outro que se reunia permanentemente na construção de projetos alternativos para tomar o poder e fazer diferente. Não eram reuniões em cima da hora. Eram homens de ideias convictas de como administrar a cidade. Essas disputas não se verificavam a poucos meses do pleito, mas tão logo terminavam as eleições. Ou seja, terminava uma e começava outra.

Foram assim as velhas e clássicas disputas do grupo do MDB (Roberto Valadão, Hélio Carlos Manhães, Gilson Carone…) contra Ferraço.

Assim também foram as insistentes investidas do grupo do PT de Cachoeiro para chegar ao poder. Os petistas, hoje em desgraça na boca de muita gente, deram excelente contribuição ao histórico eleitoral de Cachoeiro porque ensinaram como construir e manter um projeto político, sabendo esperar várias eleições até ganhar duas consecutivas e sepultar os grandes caciques eleitorais da cidade.

Em 2004 existe outro caso bem sucedido de projeto eleitoral que não foi construído em cima da hora e deu certo pela sua persistência e consistência: a eleição de Roberto Valadão.

O grupo valadonista observava Ferraço governar duas vezes consecutivas e já se preparando para fazer o sucessor Jathir Moreira. Mas bem antes do pleito lançou uma série de reuniões nos bairros de Cachoeiro.

Nessas reuniões noturnas, semanais e ininterruptas, enquanto discutiam política e questionavam pontos da administração ferracista também apresentavam um modelo novo de administrar. Modelo este que seria mostrado de forma mais ampla à população nos programas eleitorais. Tratava-se de Um Plano Para Cachoeiro. Deu certo e Valadão virou prefeito.

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O caso de Glauber Coelho também é clássico. Desde vereador ele se preparava para governar um dia. Foi secretário municipal mais de uma vez, tomando desde cedo conhecimento amplo da máquina administrativa. Estudava Cachoeiro e seus gargalos. E em 2012 por pouco não se elegeu. Apesar da derrota manteve seu capital político e ampliou, e chegava como franco favorito para 2016. Sua força e projeto político eram tão fortes que mesmo morto trouxe à tona seu irmão, até então um desconhecido.

Essas histórias não são tão antigas, mas muito eficientes. Mostram que projetos consistentes sem serem feitos em cima da hora podem dar excelentes resultados. Lamentavelmente não é o que vemos hoje para Cachoeiro.

Vivemos um salve-se quem puder, projetado em cima de nomes sem planos administrativos construídos a partir de estudos aprofundados dos problemas cachoeirenses.

O que há de real é um modelo administrativo atual com resultados consideráveis e bem aceitos pela população. E que para derrotá-lo será preciso muito mais que coletivas vazias…ou tão inovadoras quanto um museu de velhas novidades.

Aos homens que sonham uma vida inteira, a glória de serem imprescindíveis. É isso que tem faltado a Cachoeiro de Itapemirim nos tempos atuais.

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