Política

Conjunto de medidas ajuda a controlar Aids no país

Publicados

em


Aproximadamente 900 mil pessoas convivem com o vírus da imunodeficiência humana (HIV, para a sigla em inglês) no Brasil. A boa notícia para se comemorar neste Dia Mundial de Luta Contra a Aids (1º de dezembro) é que, mesmo com os percalços enfrentados por quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS), o programa brasileiro para tratamento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) permanece entre os melhores do mundo.

De acordo com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), medidas como acesso fácil a testes para a população, tratamento gratuito dos infectados, distribuição de preservativos na rede pública de saúde e campanhas de conscientização ajudaram a controlar o alastramento do vírus e a prevenir uma explosão de novos casos. 

O país ainda passou a trabalhar com outros métodos de prevenção como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), aplicados em situações de risco de contaminação pelo vírus.

Programa federal

Criado na década de 1980 para o combate do aumento de infecções no país, o programa ganhou um reforço em 1996, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, com a aprovação da Lei Federal 9.313, que determinou a distribuição gratuita de medicamentos aos portadores do HIV/Aids. A legislação surgiu no esteio de decisões judiciais obrigando o Estado a fornecer os remédios e uma das pioneiras dessa luta foi a soropositiva Nair Brito, uma das fundadoras do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas. 

Em 2006 o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou a primeira quebra de patente no Brasil de um medicamento utilizado no tratamento da Aids. Na época o custo do remédio era muito elevado e a medida serviu para barateá-lo para o governo, ampliando, assim, o acesso para os que precisavam dele. 

Outro avanço ocorreu em 2013, quando o Ministério da Saúde (MS) passou a disponibilizar o tratamento para todos os soropositivos independentemente da carga viral presente no organismo. Em 2014 a presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei Federal 12.984, que passou a tratar como crime a discriminação dos portadores do HIV/Aids.

A última medida em nível federal foi um decreto presidencial alterando a  estrutura do ministério: o Departamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), HIV, Aids e Hepatites Virais, responsável pelas políticas públicas na área, passou a se chamar Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. 

Na ocasião, houve questionamentos em relação à mudança. Dario Sérgio Rosa Coelho, membro da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP+Brasil) do Espírito Santo, teme que a retirada do nome HIV/Aids poderá representar perda de visibilidade em torno da questão, prejudicando o atendimento, custeado com recursos públicos. “Parece que somos vistos como um custo pelo governo federal”, lamenta.
Espírito Santo.

Dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) apontam que, nos últimos quatro anos, houve uma média de 1.178 novos casos de infecção pelo HIV por ano no Espírito Santo. Em 2019 foram notificados 1.195 casos. O número de óbitos vem se mantendo relativamente estável no mesmo período. A média foi de 206 mortes, número registrado no ano passado. Atualmente, a secretaria tem em seus registros mais precisamente 16.739 pessoas registradas como soropositivas. 

Leia Também:  Covid: Ales está disponível como ponto de vacinação
Ano Casos Mortes
2019 1.195 206
2018 1.070 197
2017 1.259 214
2016 1.190 208

Fonte: Boletim Epidemiológico 2020 da Sesa

Tratamento no ES

Para atenuar esses números, a médica e coordenadora do Programa Estadual de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) e Aids, Sandra Fagundes Moreira da Silva, diz que o trabalho é feito levando em consideração a estratégia da prevenção combinada, recomendada pelo Ministério da Saúde. “Incentivamos o uso de preservativo e damos a medicação antirretroviral. Melhora a qualidade de vida e não deixa transmitir o vírus”, explica. 
 

De acordo com Fagundes, a estrutura estadual para essa área conta com 26 Centros de Testagem e Aconselhamento (CTAs) e Serviços de Atendimento Especializado em Aids (SAEs). Os municípios recebem todos os anos cerca de um milhão de testes rápidos. Em caso de resultado positivo a pessoa é encaminhada para os locais especializados. 

Veja locais de atendimento no Espírito Santo

Para Dario Coelho, a rede estadual é qualificada, mas ele alerta para os riscos de uma possível mudança na estratégia de atendimento, que passaria a ser realizado nas unidades básicas de saúde.  

“A gente tem um tratamento bom, o estado é um dos melhores do país, mas vem nos causando preocupação uma onda de mudança do atendimento para a atenção básica. O estado entende que, por ser uma doença crônica, não precisaria de um atendimento especializado, então isso nos deixa temerosos”, enfatiza.

Ele argumenta que a proximidade de atendimento envolve muitas questões como a territorialidade do SUS e o estigma e preconceito com as pessoas vivendo com HIV/Aids. “Eu moro em Santa Martha (bairro de Vitória) e teria que ser atendido lá, não poderia ser em Andorinhas. As unidades não têm médicos especializados para fazer as interações medicamentosas de que a gente precisa”, exemplifica. 

Outro ponto levantado é em relação ao deslocamento das pessoas até os locais de tratamento. “Desde 2012 estamos batalhando pela questão do vale-transporte do Transcol. Temos no município de Vitória apenas. Com a pandemia está sem trocador nos ônibus e não são todos os motoristas que aceitam pegar o vale, então alguns deixam a pessoa ficar antes da catraca até o local de destino. Acaba sendo mais uma dificuldade”, lastima.

Exposição e tratamento

Sandra Fagundes frisa que a maior parte dos infectados no Estado são homens, principalmente, jovens entre 15 e 30 anos. Quase 85% dos infectados de modo geral acabam contraindo o vírus por relação sexual, mas o HIV  também é transmitido por meio do compartilhamento de agulhas e seringas contaminadas e de mãe para filho durante a gravidez. Outra possibilidade seria por transfusão de sangue, mas a coordenadora afirma que o aumento dos mecanismos de controle eliminou esse tipo de infecção no Espírito Santo há 20 anos.

A importância do tratamento imediato para quem for detectado como soropositivo é ressaltada pela médica. “A Aids aparece quando a pessoa está com a infecção por não ter se cuidado ou não ter tomado os medicamentos antirretrovirais e acaba sendo vítima de alguma ‘doença oportunista’ por estar com a imunidade baixa, como pneumocistose, tuberculose, sarcoma de Karposi e candidíase de esôfago”, frisa.

Leia Também:  Lei permite doação de celulares apreendidos

O Espírito Santo também adota outros métodos para evitar a contaminação das pessoas. A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) é voltada para aquelas que não tenham o vírus, mas que vão se expor, como no caso de relação com um parceiro que seja soropositivo. É o chamado casal sorodiscordante.

Já a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) é destinada a profissionais da saúde que possam ter sido infectados por algum acidente de trabalho e no caso de alguém ter tido uma relação sexual sem os devidos cuidados. “É preciso ir ao pronto-socorro ou UPA nas primeiras 72 horas para começar a tomar a medicação indicada”, salienta Sandra Fagundes.

Outra modalidade de profilaxia realizada é feita junto às grávidas soropositivas com a finalidade de impedir a transmissão para o bebê. “Tem o remédio para a mãe e para o bebê depois do nascimento. O estado ainda fornece gratuitamente o leite, já que essas mães não podem amamentar”, esclarece.
Dario Coelho ressalta que é preciso falar mais dessas outras formas de prevenção ao HIV, às Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e às hepatites virais ao invés de ficar apenas recomendando o uso do preservativo. Ele cita a chamada “mandala”, que combina várias ações preventivas. “É preciso romper o pensamento conservador para evitar várias outras doenças. (…) Precisamos dar autonomia de proteção para os corpos decidirem o que é melhor”, argumenta. 

Campanhas educativas

Na opinião da coordenadora do programa estadual, um dos caminhos para se evitar novas infecções do HIV, em especial, nos grupos mais expostos, é reforçar as campanhas educativas para que elas sejam realizadas durante o ano todo, não apenas em datas específicas. Ela pontua que a informação precisa chegar à população que tem mais dificuldades de acesso aos serviços de saúde. 

“Trabalhamos bastante a questão do uso do preservativo e da realização do teste; por isso a atenção do município com o cidadão é muito importante. É preciso convidar para fazer o teste e tomar o remédio”, aponta Fagundes. 

Para o membro da RNP+Brasil, é preciso é chamar as pessoas para fazer o teste, explicar que, com o tratamento adequado, ela pode levar uma vida normal e aumentar a divulgação das informações sobre os outros métodos. “Você não vê outdoor, campanha em jornal impresso, na TV, um fôlder que seja (sobre os outros meios). O Estado só quer saber de mandar usar camisinha. É preciso levar também as informações para os cursos de saúde das universidades”, acredita Coelho. 

Por fim, Dario Coelho lembra que uma pessoa em tratamento melhora a qualidade de vida e torna-se indetectável, deixando de ser um transmissor do vírus, o que é o caso dele desde 2004. “Descobri que era soropositivo aos 27 anos quando estava na Europa, fiquei um mês internado e fui transferido para o Brasil. Fui bem atendido, mas estava desenganado pelos médicos, em fase terminal, mas 18 anos depois estou aqui. Existe vida após a Aids”, garante. 
 

COMENTE ABAIXO:
Propaganda
Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Política

Janeiro Branco alerta para a saúde mental

Publicados

em


A importância de um olhar apurado para a saúde mental na sociedade é o objetivo do Janeiro Branco, mês dedicado a discussões e lutas por políticas voltadas para a prevenção e tratamento de psicopatologias. Lançado em 2014 por um grupo de psicólogos mineiros, o movimento também se dedica a tornar públicos dados e informações sobre a saúde mental dos brasileiros.

Considerados por especialistas como “a nova pandemia”, quadros como ansiedade, estresse, pânico e depressão afetam também a saúde física, além da vida pessoal e profissional do indivíduo. Segundo os profissionais que lidam com a questão, fatores como medo, luto, isolamento, perda de renda e alteração no estilo de vida das pessoas têm relação com o desenvolvimento de problemas psíquicos ou agravamento dos quadros existentes.

Na Assembleia Legislativa (Ales), a Frente Parlamentar em Defesa da Saúde Mental e a Frente Parlamentar em Defesa da Reforma Psiquiátrica e Luta Antimanicomial debatem o tema.

Pandemia e saúde mental

O afastamento social imposto pelo novo coronavírus e a incerteza em relação ao futuro após este longo período de mudanças aumentam, a cada dia, a necessidade do enfrentamento coletivo de doenças de caráter mental e emocional.

Embora os efeitos da crise sanitária estejam aumentando a demanda por atendimento desses quadros, a necessidade da quarentena afetou a oferta dos serviços prestados à pessoas com transtornos mentais e dependentes químicos em quase todo o mundo.

Números

Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 93% dos países houve prejuízos nos serviços da área de saúde mental em decorrência da pandemia.

Pesquisa coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que 47,3% dos trabalhadores dos chamados serviços essenciais – saúde, educação, segurança, transporte, telecomunicações, abastecimento e geração de energia – disseram apresentar sintomas de ansiedade ou depressão e mais da metade do grupo é afetada pelas duas patologias ao mesmo tempo.

Os dados foram coletados entre abril e maio de 2020 com entrevistados no Brasil e na Espanha. Além disso, aumentaram os relatos de alterações no sono e o abuso de substâncias como álcool, drogas e remédios controlados. Entre os entrevistados, 30,9% foram diagnosticados ou se trataram de doenças mentais no ano anterior. A pesquisa também apontou que as mulheres com idade média de 39 anos somam 72,2% desse grupo, sendo que 56,5% delas têm curso superior e 28,5% possuem mestrado ou doutorado.

De acordo com a médica psiquiatra e professora doutora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Tânia Prates, a pandemia agravou sintomas que já estavam presentes ao longo do processo do desenvolvimento em adolescentes, adultos e idosos. Além disso, pacientes que apresentavam melhora regrediram.

Leia Também:  Fake news prejudicam planos de vacinação

“No meu consultório tenho observado muitas pessoas sofrendo com transtorno de pânico, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno depressivo, fobias, transtorno obsessivo compulsivo e hipocondria. Houve agravo de sintomas que já estavam em regressão”, afirmou.

Depressão e ansiedade

Mais comuns entre as patologias psíquicas, a ansiedade e a depressão podem se apresentar juntas ou separadamente. Tânia explica que o transtorno de ansiedade generalizada (TAG) é caracterizado por preocupações excessivas com diversos eventos ou atividades, seja no âmbito pessoal, escolar, profissional ou social. O indivíduo acha difícil controlar a preocupação. A ansiedade pode vir acompanhada de inquietação, sensação de estar com os nervos à flor da pele, fadiga, dificuldade de concentração ou sensação de “branco na mente”, irritabilidade, tensão muscular e perturbação do sono.

Já a depressão é um transtorno mental que apresenta como características o humor deprimido, a perda de interesse e de prazer, que resulta em sensação de cansaço, dificuldade de concentração, ruminação ou sentimento de culpa, alterações do apetite, diminuição ou aumento da atividade motora, distúrbios do sono e ideação suicida.

Alteração na rotina

Profissionais de saúde apontam que as alterações nos hábitos de vida são responsáveis pela maior parte do aumento de casos durante a pandemia. O difícil gerenciamento do estresse causado pelo confinamento desequilibrou a alimentação, prejudicou a prática de atividades físicas e a qualidade do sono.

“Em grandes centros, principalmente, a saúde da população foi altamente impactada pelo sedentarismo e solidão, e modificar esses comportamentos representa um grande desafio tanto para os indivíduos quanto para a saúde pública”, analisa a terapeuta Maria Tereza Samora.

Preconceito e tabu

Segundo Tânia Prates, as doenças mentais estão cercadas de preconceitos. Ela explica que as pessoas rotulam aqueles que sofrem de algum desses males. “Transtorno depressivo é preguiça, transtorno ansioso é frescura, transtorno por uso de substância é falta de caráter, síndrome do pânico é bobagem ou fraqueza. As pessoas têm medo do que não conhecem e, principalmente, têm medo de adoecer e perder a razão”. A questão foi abordada na redação do Enem deste ano, que teve o tema “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”.

Tânia coordena o Programa de Extensão da Ufes “Cada doido com sua mania”, que oferta serviços a pacientes do Hospital Estadual de Atenção Clínica (antigo Adauto Botelho). “Nos primeiros encontros estavam todos ressabiados. Depois foram se conhecendo melhor e passaram a trabalhar normalmente, aprendendo uns com os outros. Os alunos da Ufes comentaram que puderam rever o preconceito que tinham para com pacientes psiquiátricos”, relata.

Leia Também:  CPI participa de ação para resgatar 34 animais

Prevenção

Profissionais da saúde esclarecem que há várias formas de prevenir esses males, afinal, é muito mais fácil e barato adotar medidas que evitem qualquer tipo de doença que despender tempo e dinheiro em tratamentos.

Algumas atitudes simples, como exercitar o corpo diariamente, mesmo que por pouco tempo, pensamentos positivos, manter-se ocupado, priorizar alimentação saudável e evitar álcool e tabaco podem ajudar na prevenção dos quadros relacionados à saúde mental.

Tânia Prates explica que é possível, ainda, atuar preventivamente contra transtornos psicológicos e psiquiátricos ainda na infância. “As crianças precisam de adultos que as cuidem e dêem a elas vontade de viver neste mundo. Criança precisa de afeto, cuidados e limites. Uma infância cuidada e vivida cercada de adultos responsáveis, afetuosos e cuidadosos diminui muito a chance de se ter problemas mentais no futuro”, observa.

Saúde mental no SUS

Em 2020, o Ministério da Saúde anunciou os preparativos para a revogação de serviços ofertados a pacientes com transtornos psíquicos ou dependência de álcool e/ou drogas no Sistema Único de Saúde (SUS), como Consultório de Rua, Serviço Residencial Terapêutico e Unidade de Acolhimento.

No final do ano passado a pasta apresentou aos conselhos Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) a proposta de revogação de cerca de 100 portarias sobre saúde mental criadas entre 1991 e 2014. Entidades que atuam na luta antimanicomial avaliam que a política proposta pelo atual governo propõe o retorno do modelo de hospitalização de pacientes em instituições psiquiátricas, mais conhecidas como manicômios.

A psiquiatra avalia que a medida prejudicaria pessoas que necessitam de acompanhamento, já que o SUS amplia as possibilidades de tratamento na esfera mental para todas as classes sociais, além de ser um direito assegurado aos cidadãos, dever constitucional do Estado, com impactos para a sociedade.

“O SUS possui uma abrangência que possibilita o rastreio de doenças mentais desde o seu início, como autismo, transtornos na fala e na aprendizagem; transtornos de conduta, esquizofrenia e tantas outras que, quanto mais cedo forem tratadas, melhor será o desfecho clínico. Minha geração e outras anteriores lutaram muito para a construção do SUS e por um tratamento adequado para as doenças mentais que necessitam de uma rede de apoio envolvendo uma complexidade de serviços e terapias. A complexidade da doença amplia a do atendimento. Algumas são de tratamento ambulatorial. Outras envolvem cuidados por toda a vida”, enfatiza Prates. 

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

BLOG DO ILAURO

POLÍTICA

POLÍTICA NACIONAL

ECONOMIA

CIDADES

BLOG DO ILAURO

MAIS LIDAS DA SEMANA