Por não ser dona de divinas tetas, e de idade envelhecida, é que carrascos como eu, sou obrigado a te sacrificar. Mas suas respostas a cada vez que te chamo no pasto me destroem porque me revelam a covardia que trago dentro de mim.
Eu te chamo Motoca, e você, obedientemente, me responde como uma filha ao pai, uma amante a quem ama, uma rainha ao rei. Da sua obediência não sou digno e me entristeço profundamente porque você me deu tanta alegria e eu, agora, só posso medir nossa relação pelo quanto você me vale e pelo quanto me dará de lucro.
É dura a covardia dos homens.
Uma vaca forte e viril como você, negra pérola, não poderia ser desapartada dos homens covardes como eu que só pensam naquilo que bons animais podem render. Seus filhos passados, seus litros da branca essência da vida jorrados das suas tetas já não valem nada, como se fossem velhos trabalhadores desgastados pelo tempo duro da lida e que não servem aos patrões.
E eu sou um pobre patrão que não te mereço. Olhando você no curral hoje, e observando a fragilidade da sua fecundidade que não veio, escuto a voz imperativa do veterinário: “Melhor vender”.
Você será vendida e encaminhada para a morte. Tá bem gorda. Vida de gado marcado e infeliz. Já foi dama no meu curral e vai ser puta na minha consciência depois de morta.
Mas não morrerás antes do meu remorso.











